O Jansenista

O novo Ashram minimalista

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Guerra à fome na Somália?


Não, guerra aos soutiens!
LER

Hoje só falo de Kimberly Munley (que se lixe o Muro de Berlim!)

domingo, 8 de Novembro de 2009

A Rainha-Mãe (e algumas ideias monárquicas)


"It must be exhausting to be a monarchist, forever finding ways to pretend a family of cold, talentless snobs are better than the rest of us. They have to make gold out of mud. The system of monarchy – selecting a head of state solely because of the womb they passed through, and surrounding them with sycophants from the moment they emerge – produces warped and dim people, and demands we scrape before them. What’s a poor monarchist to do? They can only lavish a thick cream of adjectives – ‘dignity’, ‘charm’, ‘majesty’ – over the Windsor family in the hope that some of us are fooled."
O resto aqui.

Na passagem da onda (antes e depois)




Num gesto de devoção pelo pioneirismo de Jeff Clark, os jansenistas de todo o mundo reuniram-se no mais recente swell ao largo de Half Moon Bay, em Maverick's. Outside!

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Um regresso (tardio) a Dale Chihuly


Fugir, fugir (para parte incerta)

Excessos de oferta


Belíssima intuição do Confrade Bic Laranja (AQUI): se a corrupção já trabalha a preços de saldo (a 10 mil euros o Vice-Presidente de um banco), isso só pode significar excesso de oferta. Já temos um argumento decisivo para a acusação neste processo de rescaldo às cinzas do guterrismo.

Denver a Singapura (e volta) em 5 mins.

Scroll Up, Scroll Down (calistenia ocular matinal)



quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

A honradez pós-moderna

Um rústico qualquer, ao qual longos anos de cidade não emprestaram polimento e comedimento, foi apanhado a lambuzar-se no frasco do melaço. Os comparsas, que querem fazer-se passar por gente séria, e que – pasme-se – são pagos precisamente para se fazerem passar por gente séria, em vez de correrem o lambuzado a pontapés no rabo empertigam-se em defesa dele.
Que havemos de pensar? No desconcerto do mundo?
Um, que andou anos a pregar a moralidade no aparelho fiscal, lamenta que o lambuzado tenha pedido a sua suspensão, asseverando que não tinha que fazê-lo, por ser prematuro (concluímos que ele não o faria também, nas mesmas circunstâncias, e que só sairia à força). Outro, que chefia a chafarica, demonstra a sua solidariedade, como se isso fizesse presumir fosse o que fosse (aparentemente esqueceu que o público já ouviu falar de "honra entre bandidos"). O supervisor, entalado, parece lamentar profundamente ter que tomar uma atitude (e parece lamentar ainda mais o facto de ter que trabalhar).
Um batalhão inesgotável de moços de frete e de fâmulos e de servos meios-forros e de «pretos de ganho» e de «escravos naturais» (como Aristóteles lhes chamaria) lembrou-se de sair a terreiro a pavonear as suas noções pervertidas de moralidade: e agora num quase uníssono louvam a «honradez» do lambuzado por ele ter mostrado, num pedido de suspensão de funções, assim uma espécie de semi-contrição.
O desconcerto do mundo: a honradez, pelos vistos, passa agora por não se correr de imediato para o abrigo do desmentido e da impunidade mafiosa – mesmo quando isso resulte apenas da falta de alternativas, do maldito azar do flagrante delito.

Como resistir?

NYC Spaghetti


Billie Jean


quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Uma mão - e imaginação





A minha geração e a Pátria dos Fretes

O Confrade Combustões volta à carga (AQUI) com o tema da degenerescência geracional / nacional.
Tem razões para o seu desânimo, e não os esconde.
Eu subscrevo boa parte do que diz, mas, por razões minhas, não sou tão pessimista – seja eu, ou não, menos lúcido por isso.
Pelo menos em duas coisas estamos de acordo:
a) Portugal é um país que denota ainda a sua atávica vocação marítima através da singular persistência, e prevalência, do frete. Somos o país do frete, tudo se compra e vende através de fretes, e o frete é a moeda de troca com a qual é possível adquirir-se uma nesguinha de Sol nesta caverna troglodita. Ai daquele desgraçado que rejeita a prática do frete, que não venera o frete, que não avalia o frete, que não se presta ao frete – passa a intocável, dentro da hierática ordenação de castas que ainda é a coluna vertebral deste país de embarcadiços recurvos que aprenderam a amesquinhar-se para se furtarem ao embarque.
b) Habituados que estamos à venalidade e à subserviência, somos de um entusiasmo pueril na veneração daqueles que, com mais currículo na carreira do frete, se alçaram à proeminência e agora reclamam, dos demais, a mesma prontidão mercenária com que, no decurso de vidas inteiras, lograram entortar irreversivelmente o cachaço. Por conveniência, agrupámo-los todos em partidos, e é raro vermos à deriva, por conta própria, algum desses factotums glorificados (tomá-lo-íamos por órfãos, por candidatos inadvertidos ao ostracismo, ou então por «liberais», que é sinónimo de «gente mal paga pelos fretes que fez»).
Como eu e o Confrade Combustões pertencemos à mesma geração, sinto-me autorizado a discordar da ideia de que sejamos uma geração condenada, maldita ou perdida. Melhor, que estejamos, em termos axiológicos, acima ou abaixo das que imediatamente nos precederam ou das que nos seguem. Somos fideicomissários de uma nação que deixou de se respeitar precisamente há 200 anos, e que desde então procura digerir em auto-comiseração essa constatação indigesta de que abandonou, talvez para toda a eternidade, o palco da história e aquelas migalhas de protagonismo cultural que lhe cabiam quando a Europa era o umbigo do mundo.
A nossa geração embriagou-se a fazer malha e despertou tarde de mais – se é que despertou – da sua suma irrelevância, insignificância, errância, improdutividade, descaracterização? Se o fez é porque não saiu das baias que lhe foram indicadas pelas gerações precedentes, que julgaram entrever uma promessazinha de Sol se se fizesse o frete colectivo de se abandonar o Ultramar e de se genuflectir diante da cornucópia virtual da Europa, fossem quais fossem as consequências ou as facturas para os que viessem a seguir. Nessas estreitas baias relinchamos e escoiceamos desde então, e dedicamos alguns sentimentos nobres à vanglória do palito, a única que nos resta, e mesmo essa desproporcionada, que o país deixou de valer um palito.
E como condenaria eu aqueles que esgotaram o seu arsenal de fretes a troco de uma malga de caldo e agora arreganham os dentes a quem se aproxima? É a lei da vida, hobbesiana, implacável.
Pode mesmo ser que a malga esteja vazia e não haja muito a defender – mas o que distingue uma «geração» de uma «nação» é a transitoriedade, a mortalidade, da primeira das duas, e por isso o apego fútil à inautenticidade pode bem ser uma recôndita recusa da constatação, mais cruel ainda, de que, em torno da malga que dementadamente defendemos, o vazio é porventura maior do que dentro da própria malga; e que se, no plano inclinado das nossas vidas, nos aventuramos em busca de um remédio tardio, pode ser que percamos até esses dois vazios referenciais – a troco de nada, o que particularmente choca quem, habituado a fretes, sempre exige em troca qualquer coisinha.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Sobre a parvalhização


O Confrade Combustões arranca hoje, da sua pluma talentosa, um manifesto de pessimismo antropológico, daqueles que a gente tem relendo «Sôbolos Rios»:

Aqueles que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos co poder vão,
arrasai-os igualmente,
conheçam que humanos são.

Mas não está o Confrade, literalmente, na «outra Sião»?

Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente
que, depois de a ti subir
lá descanse eternamente.

Palais Garnier (a velha Ópera)

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Vademecum existencial. I- Espíritos (3, XO ou VSOP?)

Hoje trazia uma receita de «liqueur de mirabelles au rhum», que quer dizer uma bebedeira laxante com ameixas enquanto se trauteia a toada "En passant par la Lorraine avec mes sabots", mas depois hesitei entre essa e uma «liqueur vieux garçon», para ir beberricando aos acordes de Jacques Dutronc, "Il est cinq heures Paris s'éveille".
Quem não tem 60 milhões para resgatar o Palais Lambert (Île Saint Louis) das mãos de caterpillar do irmão do Emir do Dubai pode sempre alhear-se da sorte plutocrática do mundo e cultivar o seu jardim (de preferência no seizième, "aux abords de Chaillot, avec vue imprennable sur la Tour Eiffel").
Não ouso sequer entrar no sacrário dos Cognacs, nem mesmo dos Armagnacs, e nem uma funda reverência por Proust me leva a ousar um esboço sobre as virtudes espirituosas do Calvados.
Deve ser em homenagem à pátria de Voltaire que as bedidas alcoólicas foram crismadas de "espirituosas".
O palato com discernimento rende-se à inefabilidade e confunde, na noite dos sentidos, a grandeza circundante com o gozo irónico da sagesse.
Deixem os bárbaros esventrarem com jacuzzis e elevadores e garagens e parquets o Palais Lambert – ainda sobram a Paris muitas e muitas e muitas "longueurs d'avance", que não dão qualquer chance ao resto do mundo…

Fiéis Defuntos em Mazatlán, México


Secrets de la cuisson

Un blog se veut comme un tournedos: à_point
(Sois la bien(re)venue!)

domingo, 1 de Novembro de 2009

António Sérgio, RIP

Soube há momentos que se extinguiu aquela que, para mim, foi a mais marcante "companhia" da rádio. Pela sua mão descobri mundos musicais fascinantes num determinado período da minha vida, e só deixei de fazê-lo quando a idade adulta reclamou que eu cristalizasse no tempo os meus gostos e referências musicais, englobando-os naquilo que cada um designa por «música do seu tempo». Ele seguiu em frente, sempre em frente, com outras gerações e tendências que, imagino, lamentarão em uníssono o António Sérgio como um dos "seus".
+++
À 1:28 da manhã de 14/5/2005 escrevia eu este "Noites da Rádio" no Ashram:
"Faço um intervalo nestes trabalhos nocturnos e de repente tenho um flashback aos meus tempos de adolescência, a grandes noitadas de leitura ouvindo o "Rotação" do António Sérgio na Rádio Renascença, deixando a imaginação voar na solidão meditativa do meu quarto... Lembro-me de o meu pai aparecer às vezes a meio da noite, intrigado pela luz debaixo da porta, a saber se tudo estava bem... Lembro-me de fugir a combinações com amigos – e até a "flirts" – para ficar ali lutando contra o meu sono, cavalgando os meus sonhos, remoendo os meus medos: eu, o António Sérgio, uma pilha de livros de um lado, uns sumos e umas bolachas de outro, eu viajando no Cambodja na companhia de Malraux, embalando-me nos arabescos góticos dos Cocteau Twins, as costas já doridas da posição nas almofadas, lendo para um lado (as histórias de Sven Hedin ou de Francis Younghusband), decorando subconscientemente as letras dos sucessos da New Wave, lendo para o outro lado (as proezas de Cesare Maestri no Cerro Torre, ou as desventuras de Heinrich Harrer, depois sublimemente recriadas por Brad Pitt). Que me lembre, só algumas paixões mais fortes quebraram o encantamento desta rotina, e foram as noites da tropa que a enterraram definitivamente (por muitos anos passei a detestar a solidão nocturna, lembrava-me provas topográficas entre a Murgeira e o Sonível). Penso que os alicerces poéticos da minha forma de pensar na vida se consolidaram todos ali, em momentos mais simples, mais disponíveis, mais abertos – longas noites de "curtição" egocêntrica, de abandono hedonístico a letras, a sons, a sabores benignos. Não reviveria hoje esses momentos, de medo de perder tudo o que de bom se lhes seguiu, numa qualquer das muitas bifurcações de que se compõe o passado; não me reviveria, em suma, e é agridoce este flashback, faz-me sentir tanto a distância como o orgulho, e deixa-me rever, num relance de segundos, um outro eu que, não sendo já eu, conduziu até isto que sou, e por isso se encontra embebido em mim, algures numa gaveta profunda na qual ressoa, a horas mortas, o jingle com que se abria o "Rotação" do António Sérgio."
+++
São coisas a mais para se poder agradecer. És dos "meus". Fico orgulhoso da dívida.

Para o António Sérgio

O povo de San Francisco CA

Novembro

sábado, 31 de Outubro de 2009

O cantinho


Interpelado por Charlotte acerca do problema da velhice, ocorreu-me dizer:

"O problema da velhice é um problema individual que se converte num problema social que não deveria converter-se num problema político – se não existisse essa miopia colectiva que nos faz descontar desproporcionadamente a nossa própria velhice, se não houvesse problemas de descoordenação que tolhem os movimentos de solidariedade, e se não existissem os azares da fortuna que se conjugam para tornar algumas velhices em verdadeiras catástrofes.
Há uns anos um ex-boxeur, um mauzão e homem de muitas vidas (e todas nebulosas) resolveu tomar conta dos Alunos de Apolo – diziam as más-línguas que os ingressos facilitariam o branqueamento de algum dinheiro. Mas foi com ele que se generalizou, por todo um bairro envelhecido e empobrecido, a prática das refeições gratuitas. Quando se descobriu que alguns dos velhotes já não conseguiam subir as escadas para a sala de refeições primitiva, ele arrendou uma casa térrea por perto, na qual qualquer velhote, sem burocracia, sem devassa e sem alarido, consegue matar a fome.
O Mauzão não esteve à espera de ninguém, limitou-se a observar e terá dito a si mesmo que um dia podia acabar também assim. Não sei se houve lavagem de dinheiro – mas vejo frequentemente, num vaivém de sombras recurvadas, que houve vidas e dignidades salvas.
"

Ao vivo na NYPL

Série interessantíssima de discussões de alto nível:

A minha escolha: John Richardson & Robert Hughes falam sobre Picasso
AQUI

2º Lugar: Mary-Louise Parker entrevista Ryan Adams (downloadable!)
AQUI

On the road

Tudo sobre a Route_66

Quando oiço falar das relações Brasil-África…

Au creux de mon épaule

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

O estranho caso do Zepelim Antunes que faz sombra no mar


Ontem, na TV, Lobo Antunes fez um esforço heróico para esboçar um sorriso.
Pareceu mesmo, por momentos
(Ó pá, Lobo Antunes, as vendas estão a ir pelo ralo, faz qualquer coisa!)
que ele ia ironizar consigo mesmo
(o ar nefelibata-dispéptico com um soupçon de tédio incurável pareceu vacilar)
mas acabou por triunfar o mesmo peso irremovível de queque caduco e brasonado das hortas de Benfica
sabe», «sabe» – e a muleta démarreuse já tempera o mais irritante «percebe», «percebe»)
(zzzzzzzzzzzzzzz, "eu comovo-me sempre que percebo que ninguém me compreende")
(zzzzzzzzzzzzzzz, "acho, sabe, que só me compreenderão daqui a uns séculos")
Mas o momento alto foi quando, conseguindo eu desviar os olhos de uma figa adolescente que lhe pendia da barbela
(Ó pá, Lobo Antunes, tenta captar os leitores do Paulo Coelho – imaginamos o editor, todo engomado, a sussurrar-lhe)
ele disse, nonchalant, que durante muitos anos teve dificuldade de descer à terra, e usou uma imagem obscura (Ó pá…) de uns flutuadores de hidroavião.
Sabe, Lobo Antunes, dificuldade de descer, e durante tanto tempo, isso não será antes coisa de zepelim?

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